ANÁLISE DO CONTO: “SENHORITA CORA” DE
JÚLIO CORTÁZAR
No
conto “Senhorita Cora” de Júlio Cortázar a comunicação entre os personagens é
obstruída por uma sequência de mal-entendidos, os quais surgem ou se agravam a
partir das conjecturas dos personagens a respeito dos outros interlocutores
presentes na narrativa, concebendo na convivência, aspereza ou ternura de
acordo com o que precede a concepção do sentimento.
No
que concerne à construção verbal o conto apresenta um processo peculiar de
formulação no tocante a mediação e a maneira como é traduzido o ponto de vista
dos personagens. Trata-se de uma narrativa em primeira pessoa, a qual deixa
exposto ao leitor os pensamentos, as sensações e as suposições subjetivas
feitas pelos personagens através do discurso interior. Os monólogos se
evidenciam sem nenhuma marcação textual na mudança da voz narrativa. Não há
indicativo da mudança: aspas, parágrafos, travessões. O que há, é uma intensa
polifonia de vozes nas quais são construídos diferentes pontos de vista simultaneamente.
Senhorita
Cora, Pablo e sua mãe, os médicos De Luisi, Suarez e Marcial ficam constituídos
como os narradores do conto os quais se apresentam numa construção narrativa
personativa (A narrativa personativa leva o leitor a
desligar-se da perspectiva retrospectiva de um narrador que habita um tempo futuro
àquele que norteia o mundo narrado e o convida a aventurar-se no presente do
drama), trazendo mais dramatização a cena devido a alternância de vozes.
As mudanças do ponto de vista se apresentam ao leitor por
meio de rupturas sintáticas, e elas se dão tanto entre um parágrafo e outro “(...), no fim ela foi embora e eu pude
terminar a fotonovela que tinha começado ontem à noite. ¶A enfermeira da tarde
se chama senhorita Cora, (...) (p. 18), como entre as orações “(...)o cobertor esquenta bem o menino, por
via das dúvidas vou pedir que lhe deixem outro à mão. Mas, sim claro que me
esquenta ainda bem que eles já foram embora, (...)” (p.16) e mesmo no
interior da frase, “(...), tão fofinho o
coitado com esse rostinho esbraseado, maldito calor que me sobe pela pele, o
que eu poderia fazer para que isso não me acontecesse, (...)” (p. 21). O narrador
se manifesta por meio das construções sintáticas, dos léxicos, os quais
determinam a faixa etária do personagem, a sua função no hospital e/ ou o seu
grau de relacionamento com os demais personagens além dos traços afetivos entre
eles “(...) mamãe tinha dito e pensava
que eu era como ela e que ia lhe dar ordens ou coisa parecida” (p. 16) –
Pablo; “(...) e foi pior ainda porque me
pareceu que ele ia cair no choro enquanto eu lhe raspava os poucos pelinho que
existiam ali.” (p. 19) – Cora; “(...)
ele tem apenas quinze anos, mas ninguém acreditaria nisso, sempre grudado em
mim, (...)” (p. 15) – Mãe.
A multiplicidade de vozes na narrativa, resulta na
incerteza quanto ao que de fato aconteceu além de expor a não comunicação entre
os leitores. Os comentários quase que casuais o fechamento repentino do texto
dá o tom do traço sugestivo e deixa em dúvidas o leitor com relação ao que de
fato ocorreu causando um brilhante efeito estético. Marcas textuais apontam
para a incerteza no conto como, por exemplo, “acho que”, “sei lá”, “é capaz de”, “talvez”, etc. marcas próprias
do modo verbal subjuntivo.
A narrativa de primeira pessoa destaca o acontecimento e
o fluxo de consciência dos personagens no momento mesmo do acontecimento,
resultando na separação convencional da narrativa no tangente a temporalidade
dada ao não distanciamento entre o agente da ação e o da narração ”Fui vê-lo às duas horas e ele estava
bastante bem em vista do que a coisa durou.” (p.23).
Quanto ao significado semântico do enunciado é colocado
ao leitor por meio da formulação da estrutura narrativa a qual evidencia os
conflitos apresentados na temática, cujo centro é a complicação na operação de
Pablo e na sua recuperação. Ambas passam pelos elementos do cotidiano como as
balas de hortelã, a revista de fotonovela, da alegria do chocolate, da mãe que
o envergonha, da sua timidez, etc.
A objetividade na relação médico-paciente “Bem, rapaz, agora vamos liquidar este
assunto de uma vez por todas, até quando vai ficar nos ocupando uma cama,
hein?” (p.32) se mescla com a afetividade nascente nas relações humanas ”Não consegui responder nada, fiquei ao seu
lado até que abriu os olhos e me olhou com toda sua febre e toda sua tristeza”
(p.30). No fim o que se impõe é a distancia entre o afetivo e a objetividade “ (...) sabia muito bem que não teria
necessidade de voltar a esse quarto, que Marcial e Maria Luisa cuidariam de
tudo até que o quarto ficasse outra vez livre.” (p.34).
A marcação da incapacidade de comunicação, de
entendimento entre os interlocutores acaba por se mostrar como uma metáfora do
isolamento em que os mesmos se encontram “(...)
preveni-o, mas ele não respondeu, devia estar mordendo o punho e eu não queria
ver seu rosto (...)” (p.22). Nesse aspecto a morte do garoto aparece como a
impossibilidade de entendimento entre os personagens, entretanto o contato se
configura como elo possibilitador de uma ação reflexiva “(...)seus olhos se enchiam de lágrimas que me aconteceu o de sempre,
tive raiva e quase medo, de repente me senti meio desamparada diante desse
moleque pretensioso.” (p. 30). Percebe-se aqui que a “Senhorita Cora” passa do desdém da admiração de Pablo à aceitação,
diante do quadro do paciente.
Em suma, a significação do conto passa, necessariamente,
pela forma e pela estética e ignorar tal premissa pode incorrer no não
entendimento da intencionalidade do autor.
Cristiane Zonta.
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