quinta-feira, 6 de junho de 2013

Li esse conto na faculdade e fiz uma análise dele. Achei-o impressionante tanto pelo enredo como pela estrutura, o papel do narrador. Espero que gostem. Abraços.


ANÁLISE DO CONTO: “SENHORITA CORA” DE JÚLIO CORTÁZAR


            No conto “Senhorita Cora” de Júlio Cortázar a comunicação entre os personagens é obstruída por uma sequência de mal-entendidos, os quais surgem ou se agravam a partir das conjecturas dos personagens a respeito dos outros interlocutores presentes na narrativa, concebendo na convivência, aspereza ou ternura de acordo com o que precede a concepção do sentimento.
            No que concerne à construção verbal o conto apresenta um processo peculiar de formulação no tocante a mediação e a maneira como é traduzido o ponto de vista dos personagens. Trata-se de uma narrativa em primeira pessoa, a qual deixa exposto ao leitor os pensamentos, as sensações e as suposições subjetivas feitas pelos personagens através do discurso interior. Os monólogos se evidenciam sem nenhuma marcação textual na mudança da voz narrativa. Não há indicativo da mudança: aspas, parágrafos, travessões. O que há, é uma intensa polifonia de vozes nas quais são construídos diferentes pontos de vista simultaneamente.
            Senhorita Cora, Pablo e sua mãe, os médicos De Luisi, Suarez e Marcial ficam constituídos como os narradores do conto os quais se apresentam numa construção narrativa personativa (A narrativa personativa leva o leitor a desligar-se da perspectiva retrospectiva de um narrador que habita um tempo futuro àquele que norteia o mundo narrado e o convida a aventurar-se no presente do drama), trazendo mais dramatização a cena devido a alternância de vozes.
            As mudanças do ponto de vista se apresentam ao leitor por meio de rupturas sintáticas, e elas se dão tanto entre um parágrafo e outro “(...), no fim ela foi embora e eu pude terminar a fotonovela que tinha começado ontem à noite. ¶A enfermeira da tarde se chama senhorita Cora, (...) (p. 18), como entre as orações “(...)o cobertor esquenta bem o menino, por via das dúvidas vou pedir que lhe deixem outro à mão. Mas, sim claro que me esquenta ainda bem que eles já foram embora, (...)” (p.16) e mesmo no interior da frase, “(...), tão fofinho o coitado com esse rostinho esbraseado, maldito calor que me sobe pela pele, o que eu poderia fazer para que isso não me acontecesse, (...)” (p. 21). O narrador se manifesta por meio das construções sintáticas, dos léxicos, os quais determinam a faixa etária do personagem, a sua função no hospital e/ ou o seu grau de relacionamento com os demais personagens além dos traços afetivos entre eles “(...) mamãe tinha dito e pensava que eu era como ela e que ia lhe dar ordens ou coisa parecida” (p. 16) – Pablo; “(...) e foi pior ainda porque me pareceu que ele ia cair no choro enquanto eu lhe raspava os poucos pelinho que existiam ali.” (p. 19) – Cora; “(...) ele tem apenas quinze anos, mas ninguém acreditaria nisso, sempre grudado em mim, (...)” (p. 15) – Mãe.
            A multiplicidade de vozes na narrativa, resulta na incerteza quanto ao que de fato aconteceu além de expor a não comunicação entre os leitores. Os comentários quase que casuais o fechamento repentino do texto dá o tom do traço sugestivo e deixa em dúvidas o leitor com relação ao que de fato ocorreu causando um brilhante efeito estético. Marcas textuais apontam para a incerteza no conto como, por exemplo, “acho que”, “sei lá”, “é capaz de”, “talvez”, etc. marcas próprias do modo verbal subjuntivo.
            A narrativa de primeira pessoa destaca o acontecimento e o fluxo de consciência dos personagens no momento mesmo do acontecimento, resultando na separação convencional da narrativa no tangente a temporalidade dada ao não distanciamento entre o agente da ação e o da narração ”Fui vê-lo às duas horas e ele estava bastante bem em vista do que a coisa durou.” (p.23).
            Quanto ao significado semântico do enunciado é colocado ao leitor por meio da formulação da estrutura narrativa a qual evidencia os conflitos apresentados na temática, cujo centro é a complicação na operação de Pablo e na sua recuperação. Ambas passam pelos elementos do cotidiano como as balas de hortelã, a revista de fotonovela, da alegria do chocolate, da mãe que o envergonha, da sua timidez, etc.
            A objetividade na relação médico-paciente “Bem, rapaz, agora vamos liquidar este assunto de uma vez por todas, até quando vai ficar nos ocupando uma cama, hein?” (p.32) se mescla com a afetividade nascente nas relações humanas ”Não consegui responder nada, fiquei ao seu lado até que abriu os olhos e me olhou com toda sua febre e toda sua tristeza” (p.30). No fim o que se impõe é a distancia entre o afetivo e a objetividade “ (...) sabia muito bem que não teria necessidade de voltar a esse quarto, que Marcial e Maria Luisa cuidariam de tudo até que o quarto ficasse outra vez livre.” (p.34).
            A marcação da incapacidade de comunicação, de entendimento entre os interlocutores acaba por se mostrar como uma metáfora do isolamento em que os mesmos se encontram “(...) preveni-o, mas ele não respondeu, devia estar mordendo o punho e eu não queria ver seu rosto (...)” (p.22). Nesse aspecto a morte do garoto aparece como a impossibilidade de entendimento entre os personagens, entretanto o contato se configura como elo possibilitador de uma ação reflexiva “(...)seus olhos se enchiam de lágrimas que me aconteceu o de sempre, tive raiva e quase medo, de repente me senti meio desamparada diante desse moleque pretensioso.” (p. 30). Percebe-se aqui que a “Senhorita Cora” passa do desdém da admiração de Pablo à aceitação, diante do quadro do paciente.

            Em suma, a significação do conto passa, necessariamente, pela forma e pela estética e ignorar tal premissa pode incorrer no não entendimento da intencionalidade do autor.

Cristiane Zonta.

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